A Filha Mais Velha
(ou: Ser Cuidada Dói)
Certa vez fui questionada: porque você não deixa eu cuidar de você? Porque você não se deixa ser cuidada?
Eu não soube responder, mas fato é que, toda vez que alguém se aproximava pra “cuidar” eu, arisca feito um gato escaldado, fugia léguas.
Se passaram anos, e há algum tempo eu passei a questionar a mim mesma sobre isso. Foi depois de uma conversa com a minha mãe. Ela disse. Como foi que ela disse?
“Fiz o que deu e você está aí muito bem! “
Ela fez o que deu por mim. Não era a prioridade. A sina da filha mais velha é ser autossuficiente, cuidar de si e dos mais novos, é ser a mãe que não pariu, ainda sendo criança.
Sim, hoje eu estou bem. Ainda recolhendo os cacos doque um dia foram mil pedaços de mim mesma. Eu estou bem. Eu sou forte, não choro.
A autossuficiência me moldou, me fez entender que só eu posso cuidar de mim mesma, porque se não fosse a crianças iria chorar sozinha.
A autossuficiência me moldou e me fez criar uma couraça, uma proteção, que ainda era falha. Engole o choro! Segue em frente!
Certa vez fui questionada: deixa eu cuidar de você?
Com um pé atrás, quase fugindo, com frio na barriga, com nó na garganta, estendi a mão e permiti que cuidassem. Por mais estranho que pareça, ser cuidada dói. A estranheza de quem sempre cuidou.
Ela disse: “Fiz o que deu e você está aí muito bem! “
Recolhendo meus cacos e tentando ser cuidada, tento cuidar da minha criança que foi duramente negligenciada.
“Fiz o que deu e você está aí muito bem! “, ela disse. Eu sobrevivi, me protegi talvez de mim mesma, a couraça de autossuficiência pode ter me salvado no passado, mas ela me isola no presente. Me permitir o cuidado é o exercício mais difícil que já fiz.
Hoje a filha mais velha se permite - ainda pouco - cuidar da criança que já foi. Sem couraças.

